Quanto custa não tornar a rede mais resiliente?

Quanto custa não tornar a rede mais resiliente?

Na coluna anterior, encerrei meu artigo com uma provocação:

“A pergunta já não é quanto custa tornar a rede mais resiliente. A pergunta é quanto custa não torná-la.”

A primeira reação costuma ser dizer que essa conta é impossível de calcular. Mas ela não é.

Em 2016, a ANEEL encomendou um estudo específico para avaliar os custos econômicos associados às interrupções de energia elétrica. O trabalho, desenvolvido por um consórcio liderado pela Sinapsis Inovação em Energia, buscou justamente responder uma pergunta simples: quanto a sociedade perde quando a energia deixa de ser fornecida?

O estudo estimou o chamado Custo da Energia Não Suprida (CENS), um indicador que procura medir os prejuízos causados por interrupções no fornecimento. Para consumidores comerciais, o valor mediano encontrado foi de R$ 34,31 por kWh não fornecido. Para consumidores industriais, R$ 24,73 por kWh. Em atualização própria pelo IPCA para valores de 2026, esses números equivalem aproximadamente a R$ 58/kWh para o setor comercial e R$ 42/kWh para o setor industrial.

O dado mais importante, porém, não é o valor em si. É o fato de que o setor elétrico já desenvolveu métodos para estimar economicamente o custo das interrupções. Mesmo assim, quando discutimos investimentos em infraestrutura, quase sempre analisamos apenas um lado da equação. 

Sabemos calcular com precisão o custo de uma subestação, de uma linha ou de uma rede automatizada. Mas raramente calculamos com a mesma profundidade o custo da sua ausência. Os eventos recentes em São Paulo ajudam a ilustrar esse ponto. Após o temporal de outubro de 2024, mais de três milhões de consumidores ficaram sem energia. Segundo estimativas da FecomercioSP, as perdas para os setores de comércio e serviços chegaram a aproximadamente R$ 1,65 bilhão. 

Evidentemente, esse valor não representa um cálculo formal de CENS. Ainda assim, ajuda a visualizar algo que os estudos já indicavam: o impacto econômico das interrupções vai muito além da energia que deixou de ser fornecida.

A conta da interrupção não fica restrita à distribuidora. Ela se espalha pela economia, aparece na produção que não aconteceu, nas vendas que não foram realizadas, nos serviços que deixaram de funcionar e nos impactos que atingem diretamente a população.

Durante décadas, a principal pergunta feita ao setor elétrico foi:

“Quanto custa construir?”

Essa continua sendo uma pergunta necessária, mas talvez ela já não seja suficiente. Os estudos mostram que o custo da interrupção existe, pode ser estimado e, principalmente, não é igual para todos os consumidores e para todas as regiões. Talvez o próximo passo não seja apenas discutir quanto investir em resiliência, mas entender onde a falta dela custa mais caro para a sociedade.

Referências

ANEEL. Contrato nº 107/2015. Avaliação dos Custos Relacionados às Interrupções de Energia Elétrica e suas Implicações na Regulação. Consórcio Sinapsis Inovação em Energia, Mercados de Energia Consultoria e Mercados Energéticos Consultores, 2016.

IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), atualização monetária realizada pelo autor para valores de 2026.

FecomercioSP. Estimativas de perdas econômicas decorrentes dos apagões ocorridos na Região Metropolitana de São Paulo em 2024.

Sobre o autor:

Daniel Bento, PMP, é Eng. Eletricista e atua com redes subterrâneas de média tensão desde 1989. Coordenou o Comitê de Estudos B1 do CIGRE. Foi responsável técnico pela rede de distribuição subterrânea de SP. 4 vezes na lista dos 100+ Influentes da Energia. Atualmente é CEO da BAUR do Brasil e da BAUR USA Corp, e conselheiro do CIGRE-Brasil.

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Fonte: www.osetoreletrico.com.br