Infraestrutura de recarga define o futuro dos ônibus elétricos no Brasil

Infraestrutura de recarga define o futuro dos ônibus elétricos no Brasil

A eletrificação do transporte público avança no Brasil. As vendas de ônibus elétricos cresceram mais de 140% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).¹

Apesar do ritmo acelerado, a adoção ainda é concentrada em grandes centros, o que mostra que a expansão nacional depende de fatores estruturais, principalmente da infraestrutura.

Cidades como São Paulo, Goiânia, Curitiba, Salvador e São José dos Campos já avançam na eletrificação de suas frotas e na implantação de estruturas de recarga, ainda que em estágios diferentes. Esses projetos ajudam a consolidar o modelo, mas também evidenciam os desafios de escalar a infraestrutura de forma consistente.

A recarga é o ponto crítico desse processo. Sem ela, a operação não se sustenta. Um ônibus elétrico fora de serviço por falta de recarga compromete a rotina das cidades e afeta diretamente a população.
Tenho acompanhado de perto a evolução desse mercado e, na prática, o debate ainda está muito concentrado nos veículos. Isso distorce a análise. A infraestrutura precisa ser tratada com o mesmo nível de prioridade, porque é ela que garante a continuidade da operação.

A padronização técnica é parte da solução. Protocolos de comunicação, interoperabilidade, eficiência energética e requisitos de segurança precisam seguir critérios mínimos comuns. Esses elementos permitem integração entre sistemas e reduzem riscos operacionais.

Ao mesmo tempo, padronizar tudo não funciona. As cidades têm realidades distintas. A capacidade da rede elétrica, o perfil das linhas e a estrutura das garagens variam. Na minha avaliação, forçar um modelo único tende a gerar soluções inadequadas.

A escolha de fornecedores também exige atenção. O menor preço inicial não garante desempenho. A infraestrutura de recarga exige suporte contínuo, manutenção e capacidade de resposta. Na prática, já acompanhamos casos em que o menor preço na licitação gerou o maior custo no contrato. O consumo energético em standby é um exemplo claro: invisível na proposta, mas presente todos os dias na fatura.
O modelo de compra agregada pode ajudar a reduzir custos e ampliar o acesso a financiamento. Mas precisa ser estruturado com equilíbrio. Especificações rígidas demais limitam soluções. Flexibilidade excessiva compromete eficiência e segurança da operação.

Na prática, a contratação de solução completa tem se mostrado mais eficiente. Quando um único fornecedor responde por projeto, instalação e manutenção, há mais clareza de responsabilidade e menos risco de falhas.

A eletrificação do transporte público representa uma oportunidade relevante para o país. Na minha visão, essa transformação só se sustenta com uma base sólida. A infraestrutura de recarga precisa ser planejada com critério técnico e visão de longo prazo. É ela que sustenta toda a operação.

No seu projeto, a infraestrutura de recarga está sendo planejada com a mesma prioridade que a compra dos veículos?

Sobre o autor:

João Pedro Tabelini, Gerente de Eletromobilidade da Nansen

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Fonte: www.osetoreletrico.com.br