Distribuidoras alertam para riscos operacionais dos cortes de geração

Distribuidoras alertam para riscos operacionais dos cortes de geração

As distribuidoras de energia elétrica estão preparadas para atender eventuais pedidos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), conforme o plano emergencial em vigor. No entanto, o segmento alerta para a necessidade de definição de critérios claros e procedimentos detalhados para a execução dos cortes de geração, de forma a evitar insegurança jurídica e possíveis contestações.

O setor elétrico brasileiro vive atualmente um cenário de excesso de oferta de energia. Em março, a capacidade instalada alcançou 249,5 GW, sendo 45,5 GW provenientes de micro e minigeração distribuída (MMGD), o que representa 18,3% do total. Esse crescimento traz desafios inéditos para a estabilidade do sistema.

Em períodos de baixa demanda e alta geração solar — como feriados e fins de semana — o excesso de energia pode comprometer o equilíbrio da rede, exigindo o chamado curtailment, ou corte de geração, para evitar blecautes.

Diante desse contexto, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinou a implementação de um plano emergencial para usinas conectadas à rede de distribuição (Tipo III), como solares, eólicas, PCHs e biomassa. A medida é acionada quando os recursos da rede principal se esgotam, com o objetivo de preservar a segurança do Sistema Interligado Nacional.

Nesse arranjo, as distribuidoras atuam como executoras das ordens do ONS, repassando aos geradores locais a necessidade de redução da geração. Em cenários críticos recentes, a restrição de fontes controladas chegou a 98,5%, reduzindo a margem de segurança do sistema e evidenciando a necessidade de inclusão das usinas de menor porte nos cortes.

Apesar da prontidão operacional, o segmento demonstra preocupação com a falta de detalhamento sobre como esses cortes devem ocorrer. Hoje, o ONS informa apenas o volume total de redução necessário por área, cabendo às distribuidoras definir como esse montante será distribuído entre as usinas.

A ausência de critérios objetivos de rateio aumenta o risco de judicialização, já que geradores podem questionar perdas financeiras decorrentes das decisões. Além disso, o plano foi implementado sem Análise de Impacto Regulatório e sem consulta pública, o que amplia a insegurança.

Há também desafios técnicos. Diferentemente das grandes usinas, as unidades Tipo III não estão sob controle direto das distribuidoras, que não possuem o comando físico para desligamento, atuando apenas como intermediárias na comunicação com os geradores.

Para mitigar essas dificuldades, está em estudo a criação de um sandbox regulatório, com a evolução das distribuidoras para o papel de operadores do sistema de distribuição (DSO). A proposta prevê a divisão das usinas Tipo III em dois grupos: acima e abaixo de 10 MW. As de maior porte passariam a contar com mecanismos obrigatórios de supervisão e controle em tempo real, permitindo atuação mais coordenada com o ONS.

No longo prazo, o equilíbrio do sistema dependerá de soluções estruturais, como o avanço do armazenamento de energia e o desenvolvimento de tarifas mais inteligentes, capazes de estimular o consumo em momentos de excesso de geração. Até que essas alternativas se consolidem, os cortes de geração tendem a ser o principal instrumento para garantir a segurança da operação.

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Fonte: www.osetoreletrico.com.br